Postado em 26/03/2011 22:01
Por Jeyson Rodrigues
Rubem Alves conta que só lê livros escritos com sangue, e que após comê-los, deixam de pertencer aos seus autores, passando a circular em sua própria carne e corrente sanguínea. Deles se apossa e reconta. Prefiro aplicar o pensamento de Rubem às pessoas, livros mais vivos, coloridos, ilustrados. Na contra-mão de Zíbia Gaspareto, afirmo que todos são de todos. E eu, que sou um colecionador de gente, à semelhança de Thomaz, na “A insustentável leveza do ser”, coleciono expressões, jeitos, vozes, pensamentos, atitudes, palavras, risos e lágrimas, suspiros, gemidos, gritos e silêncios, olhos e olhares. Na sala de minha coleção, não se encontram amontoadas todas as pessoas que deixaram de ser delas para se tornarem também minhas. Mas cada uma, particularmente. Nunca se perdem no meio das outras. Cada uma se destaca entre todas, de forma que somente eu me perco entre os retalhos costurados na colcha que sou. E o que faço com você, que deixou de ser sua ou seu pra em mim se costurar? Ora meus, ora minhas, faço o que quero quando quero, uso, abuso, refaço, misturo, arbitrariamente, com todos os eus. Comigo estão, em minha carne e sangue, e na objetividade da minha existência, no jeito de falar e de me mover. Comigo estão, em toda a subjetividade da minha co-existência, esboçando o concreto porvir, ou não-porvir: meus pensamentos e sentimentos, minha espiritualidade e ausências de fé. A Ceia sempre mexe comigo. Sempre imaginava como teria soado aos ouvidos apostólicos, o convite a comer a carne e beber o sangue do amigo que predizia sua morte. Talvez, como brincadeira de mal gosto. Particularmente, acho que magoado pelo convite sádico, depois de censurá-lo, me negaria a comer e sairia da mesa. Mas acho que é isso. Eucaristicamente, comemos a carne e bebemos o sangue uns dos outros. Deixamos de ser nossos quando somos consumidos por quem nos consome. Entramos em sua corrente sanguínea e nas dialéticas e dinâmicas de cada um. Fazemos parte. Nos misturamos. Nos tornamos mais de um em um só, como que fazendo amor, profanando a Trindade, ou simplesmente multiplicando-a, ou simplesmente integrando-a, ou simplesmente concretizando-a, talvez melhorando-a. Voltei de Feira de Santana, diferente. Apaixonado por tantas coisas que nem conseguem ser ditas. Dentro em mim, algumas pessoas tomaram o lugar de alguns livros. Muitos livros erraram. Comi e bebi a carne e o sangue dos que agora fazem parte de mim. Aprendi mais sobre Feira e eucaristia. Sobre morte e vida. Aprendi que bruxas existem, e que são boas e belas. Aprendi sobre rãs, acarajés e maçãs. Aprendi mais sobre violência e carinho. Sobre fé, amizade e amor. E aprendi mais sobre encantamento. Sobre rupturas e negociação. Sobre cerveja, estrelas e Anísia. Sobre loucura e Aníssima. Sobre mim e a fina-pele de Ana. Sobre Marcos, Cleize e Samir. Sobre Jorge, Felipe e Aletuza. Novos e antigos-novos rostos, constituídos e sempre re-constituídos por suas próprias eucaristias. E agora, protagonistas da reconstrução de mim, eucaristicamente.
Fonte:Blog de Jeyson Rodrigues
Escutando: Colors of the heart - UVERWorld
Lendo: O Tao do Jeet Kune Do - Bruce Lee
Assistindo: One Piece
Jogando: The King of Fighters 98
Comendo: Sopa
Bebendo: Café
Permalink Comentários (0)
|