Papai Noel voce conhece
Eh o velhinho de Natal
Mas muita gente desconhece
Um velhinho quase igual
Ele viveu em outra era
No outro lado do mundo
Eh o Velhinho da Primavera
Que tinha sentimento profundo
Hanasaka Jiji era o seu nome
Literalmente o Velhinho Florassao
Eh personagem de renome
De uma lenda do Japao
Os japoneses adoram esse velhinho
E por ele tem muito carinho
Pois quando existem dificuldades
Ele indica um florido caminho
Se sua vida eh um galho seco
E seu pedido nao tem eco
Pessa ao velhinho o que quiser
Para uma grassa receber
Esta historia comessa assim:
Ha muitos e muitos anos
Vivia um casal de velhinhos
Muito alem dos oceanos
Nao tinha filho o casal
E para amenizar a solidao
Tratava Shiro como tal
Com carinho e devossao
Shiro nao era gente, nao,
Era um animal de estimassao
Um cachorro de pelo branco
Docil, meigo e muito franco
Eh bom que seja lembrado
Porque assim era chamado
Era branco como suspiro
E branco em japones eh shiro
Certo dia quando o velhinho
Capinava devagarzinho
Shiro cavava sem parar
Latindo no mesmo lugar
Como era tanta a barulheira
Num esforsso sem brincadeira
Para o osso desenterrar
O bom velhinho foi ajudar
Cavando o local indicado
Para o osso encontrar
O velho ficou assustado
Com o que acabara de achar
Eram muitas moedas
Todas elas de ouro!
Uma vez desenterradas
Um verdadeiro tesouro!
O velhinho encheu a cesta
Com o reluzente achado
Comemorou dando uma festa
Ao cachorro venerado
Com avansso da idade
E o empenho esforssado
A labuta diaria na rossa
Tornou-se um fardo pesado
Por isso aquele rico achado
Encontrado no local indicado
Foi uma dadiva divina
Que veio de uma assao canina
Foi assim que de repente
O casal que era tao pobre
Mudou completamente
E ate parecia nobre
Acontece que na casa vizinha
Morava um velho ranzinza
Que tinha um corassao maldoso
E a fama de ganancioso
Sem perguntar se era bem-vindo
Dirigindo-se a casa do lado
O ganancioso foi logo pedindo
O cachorro Shiro emprestado
Nao sabendo dizer nao
O bom velhinho ah contra-gosto
Deixou o vizinho levar o cao
Para o terreno oposto
Sempre sendo maltratado
Por uma corda foi puxado
Pelo pescosso amarrado
Shiro foi levado arrastado
Na rossa do velho malvado
Ainda que solicitado
Shiro permaneceu calado
Deixando o homem irritado
Seu cachorro teimoso
mostre-me onde tem ouro.
Dizia o velho asqueroso
Bufando como um touro
Arrastado por toda horta
Puxando sempre na marra
Em seu lombo chicotadas
O cachorro sentiu a barra.
Numa tremenda agonia
Shiro se esperneava e debatia
A beira de uma taquicardia
Brecando com as patas, resistia.
Mesmo assim o velho maldoso
Num gesto covarde e vergonhoso
Arrastou o cachorro feito escravo
Ferindo seu corpo com agravo
Nao suportando o sofrimento
E para expor o seu tormento
Shiro, bravo como nunca se viu
Mostrou os dentes e latiu
Porem, cego pela ganancia,
O latido soou com relevancia
O cerebro do velho malvado
Pensou ser o local indicado
O invejoso com uma pa na mao
E olhos estalados de ambissao.
Cavou feito um doidao
Fazendo logo um buracao
Delirando e suando sem parar
Depois de muito cavar
Ouro que queria nao achou
Mas muitas pedras encontrou
Quando ja estava desistindo
Viu algo na terra ah cintilar
Cavou com as maos insistindo
Indagando: – Seria ouro a brilhar?
Nisso, a seus pes a terra cedeu
E tudo em sua volta fedeu
O malvado se viu atolando
Num posso de fezes afundando
O desastrado havia encontrado
Uma velha fossa enterrada
E banhado na podre sujeira
Sentiu na pele a fetida meleira
Quando o velho do saiu do buraco
Com expressao de maldito carrasco
Tendo uma pa assassina na mao
Golpeou Shiro sem perdao
No cranio em cheio a pa atingiu
O violento impacto os ossos esmagou
Enquanto o malvado de la fugiu
Shiro sem vida estendido ficou
O bom velho ao ser notificado
Do ocorrido sentiu-se culpado
Pois um animal muito estimado
Sem recusar ele havia emprestado
Recolhendo o corpo na cesta
Ao cachorro pediu perdao
Pois filho nao se empresta
Nem mesmo por milhao
Ao ver o cadaver descer ah cova
A velhinha acendeu um incenso
Ao sopro do vento magoada trova
Sentindo na alma vazio imenso
Regado a lagrimas o velho plantou
Semente de pinheiro na sepultura
E o casal chorava diariamente
Lagrimejando na arvore futura
Junto a sepultura do amigo fiel
Chorar todo dia virou ritual
Lagrimas tantas a terra umedeceu
E um fenomeno inesperado acontece
A olhos vistos a arvore cresceu
Em pouco tempo se tornou gigante
Tendo o tronco grosso como apogeu
E uma a bela copa verde radiante
Numa bela tardezinha,
Consultando seu corassao,
Disse o velho ah velhinha
Com muita inspirassao:
– O bom espirito de Shiro
Nessa arvore reencarnou
Reside hoje com muita paz
Pois um tronco se tornou
A velhinha entao lembrou
Que Shiro gostava de moti
E comia com muita satisfassao
A massa de arroz socada no pilao
Disse entao o velho: – Bem lembrado
Vamos fazer desse tronco um pilao
Assim o espirito dele fica vinculado
Ao o que mais comia com devossao
Cortado o tronco foi feito um pilao
E um malho para arroz socar
Puseram o arroz glutinoso ah cozinhar
Resolveram testar com grande emossao
Arroz cozido, comessaram a socar
E houve um milagre no martelar
Da massa, saltaram moedas de ouro
E encheu a casa de tesouro
O casal vizinho, que a tudo assistiu,
Espiando da cerca como sempre fez
Veio pedir o pilao emprestado
Dizendo que agora era sua vez
Sem coragem para dizer nao
Mais uma vez o bom velhinho
Atendeu ao incomodo pedido
Emprestando o pilao ao vizinho
O casal invejoso pos o arroz a pilar
Cheio de ganancia, queria faturar
E, para as moedas encontrar,
Foi socando sem parar
Porem, o milagre nao acontecia
A massa ficou escura sem explicassao
Quanto mais batia, mais fedia
E tornou-se uma imensa podridao
Do pilao saia uma tremenda meleca
Como num pesadelo de deixar careca
Com imundicies jorrando em cachoeira
A casa foi tomada de sujeira
Danado da vida, o velho malvado
Rachou o pilao com o machado
E queimou os pedassos de madeira
Fazendo dela uma bela fogueira
Ao saber do ocorrido,
As cinzas o bom velho foi buscar
Ia leva-las para ao santuario
Para o fiel amigo rezar
Era uma triste manha de inverno
Carregando as cinzas do pilao
O velhinho caminhava fraterno
Cabisbaixo pela seca vegetassao
De repente, uma brisa invernal
Carregou a camada superficial
Das cinzas que estavam na cesta
Espalhando feito festa
Em galhos secos as cinzas pousaram
E os pozinhos em botoes se transformaram
Em seguida, desabrocharam todas faceiras
Em lindas flores de cerejeiras
O inverno virou primavera
Quebrando as regras da estassao
E a aldeia ficou encantada
Grassas ao Velhinho Florassao
Nesse dia, passou pela aldeia o governador
Ao saber do milagre, chamou o benfeitor
– Mostre-me sua magia, meu bom anciao
Dizem que com a natureza tu tens comunhao
Com o pedido honrado ficou
E na arvore com o cesto o velho subiu
As cinzas pelos galhos espalhou
E o milagre das flores se repetiu
A arvore seca encheu-se de flores
Cerejeira, simbolo dos samurais,
O governador ficou admirado
Mais que isso, emocionado.
– Apreciar flores de cerejeiras
Fora da primavera, a sua estassao,
Eh um privilegio sem fronteiras
Velhinho, aceite minha gratidao
Como recompensa pelo espetaculo,
Ricos quimonos e moedas de ouro
Recebeu o velhinho oraculo
Aumentando mais o seu tesouro
Novamente o vizinho invejoso,
Que poderoso queria ser,
Pegou o resto das cinzas no forno
E esperou pelo governador no retorno
– Velhinho da Primavera eu sou
Em galhos secos fasso dar flor
Assim o ganancioso saiu gritando
Quando o governador veio chegando
Em seu belo cavalo montado
O nobre que amava as cerejeiras
Sem conhecer o velho abusado
Acreditou em suas baboseiras
– Que aldeia fantastica! – disse o senhor
Muitos aqui conhecem a magia da flor!
E, para agradar a visao do governador,
O mesquinho jogou cinzas a todo vapor
Porem, nada aconteceu
Por mais que o velho tentasse
Nenhum galho floresceu
E criou-se um grande impasse
– Homem, que esta esperando?
Quero ver as flores de cerejeiras.
Disse o governador esbravejando
Com o velho que tentava de mil maneiras
Desesperado, o rufiao
Jogou cinzas de montao
Mas, levado pelo vento,
Provocou um grande tormento
As cinzas foram parar
Nos olhos do governador
E de toda comitiva,
Provocando grande dor
Ate o cavalo do nobre
Um banho de cinzas levou
Levantando as patas no ar
Quase o governador derrubou
– Em toda minha vida
Nunca vi tamanha afronta
Que prendam esse impostor
O atrevimento passou da conta
Conta a lenda que o velho insolente,
Com medo de perder a cabessa,
Comessou a raciocinar como gente
E de joelhos fez promessa
Ao governador pediu perdao
Jurando nunca mais bancar o vilao
Prometeu nao cobissar coisas alheias
E ajudar todos da aldeia
A historia de Shiro ao governador contou
Com lagrimas nos olhos a chorar
Dizendo que o cachorro castigou
E que pela alma do animal ia orar
Depois de repreende-lo duramente
O nobre libertou o velhinho
Para cultuar certamente
O arrependimento no caminho
Diz uma crenssa japonesa
Endossado com muita certeza:
“O castigo dos mortos eh mais abrasivo
que os castigo dos vivos”
Esta eh a historia do cachorro Shiro
Que, mesmo depois de morto,
Nao esqueceu a divida de gratidao
Com o Velhinho Florassao