Fanfic A Dama Escarlate - Capítulo 1


Postado em 06/09/2011 03:03

Personagens Indisponível
Tags Vampiro, Drama, Original, Sangue, Amigos, Grupo, Vermelho, Dama, Escarlate

NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Ficção e Fantasia, Terror e Horror, Drama (Tragédia)
Avisos: Violência

 

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Notas da Autora


Esta fanfic é de minha autoria. Qualquer semelhança com ela será considerado plágio.
Espero que todos gostem. Boa leitura!

Capítulo 1 - Capítulo Único





A noite fria era iluminada apenas pela lua cheia em tom amarelo. Do alto de um penhasco, podiam-se ver as luzes da cidade ao longe, uma visão que agradava a qualquer pessoa. As árvores em volta do grupo de amigos balançavam suas folhas incansavelmente por conta do vento forte, que teimava em tentar apagar a fogueira no meio de um círculo feito pelos amigos e suas barracas.

Mesmo enrolada em um cobertor, Luíza não pôde deixar de tremer quando o vento bateu em seu rosto. Amaldiçoava o tempo mentalmente por estar fazendo tanto frio justo no dia que ela e seus amigos decidiram acampar, sendo que a semana toda fez um calor imenso. A garota arrumou sua touca de lã branca em sua cabeça, passando sua mão pelos seus cabelos loiros longos em seguida.

- Isso só pode ser praga sua, Bruno! – falou emburrada a garota para o colega ao seu lado – Você ficou a semana inteira falando que não queria vir ao acampamento.
- Eu? Por que a culpa é sempre minha? – o moreno parecia estar inconformado com a afirmação da amiga.
- Por que você é um idiota.
- Ah, eu sei que você não resiste ao meu charme – ele passou a mão pelos seus cabelos curtos, e piscou para a amiga, que corou com o comentário. Isso fez todos do grupo rirem.
- Vocês dois são tão fofos... – comentou Rafaela, abraçada ao namorado – deveriam assumir de uma vez que são apaixonados um pelo outro.
- Ficou doida, Rafa? – ela piscava freneticamente seus olhos castanhos – Eu, apaixonada por esse idiota?
- É Luíza, admite logo que me ama, vai ser bom para nós dois.

Bruno a encarava com carinho, seus olhos castanhos claros deixavam Luíza sem fôlego, mas ela nunca admitiria isso na frente de todos. A única coisa que fez foi cruzar seus braços e desviar seus olhos dos dele, observando a fogueira.

- Idiota.

A resposta de Luíza só serviu para comprovar o que todos já desconfiavam, mas seus amigos apenas riram. Eles a conheciam muito bem, sabiam que ela era a teimosa da turma, e enquanto não achasse que é a hora certa de dizer o que sentia por Bruno, ela se manteria em silêncio.

- Vocês dois são uma figura, é um máximo vê-los discutindo – Pedro comentou, aninhando-se ainda mais à Rafaela e arrumando o cobertor em volta deles.
- Fala isso por que não é com você.
- Ora Luíza, leve na esportiva! O Bruno não é tão feio assim...

Pedro olhou para a namorada com uma sobrancelha arqueada.

- Como é que é, Rafaela?
- Ah, seu bobo! – Ela tirou a franja loira de seu namorado dos seus olhos verdes – Não precisa ter ciúmes do Bruno!
- Desculpe, só estou cuidando do que é meu.

Rafaela beijou seu namorado, deixando seus outros amigos desconfortáveis.

- Legal, ficamos de vela – pronunciou-se Guilherme, finalmente.
- Vela não, castiçal!
- Rafa, onde você encontrou o Pedro, tinha mais?
- Nossa, vai me desprezar desse jeito mesmo, Luíza?
- Tá difícil de entender que não quero nada com você, não é Bruno?
- Pelo jeito, quem quer alguma coisa aqui é ele, Lu.

O comentário de Guilherme fez com que seus amigos imaginassem coisas além do que deveriam. Todos continham um sorriso malicioso no rosto, e olhavam para a Luíza, deixando-a muito corada.

- Dá pra parar com as piadinhas?
- Ok, melhor parar mesmo, daqui a pouco ela estará tão vermelha quanto um vidro de catchup.
- Hahaha, que engraçado, Gui.
- Ei pessoal, que tal uma história antes de dormir?
- Que tipo de história? – perguntou Pedro, interessado na ideia de Bruno.
- Do tipo histórias de acampamento, ué! Nunca ouviram falar não?
- Alguém conhece uma boa história para contar? – perguntou Rafaela.
- Por acaso, eu conheço – Bruno tinha um grande sorriso no rosto.
- Já vi que não vai prestar!
- Nossa Lu, que animação, ein?
- Guilherme, uma história vinda do Bruno nunca é boa coisa!
- Sabia que eu adoro sua implicância, Lu? – Bruno dessa vez aproxima-se do rosto de Luíza, que encabulada, o empurra.
- Para com isso Bruno! Que saco!
- Droga, agora quem tá sobrando aqui sou eu – Guilherme deu um pequeno sorriso.
- Deixa de ser tonto, Gui. Entre mim e esse idiota nunca vai rolar nada.
- Ei, e a história, vai rolar ou não? – Pedro perguntou impaciente.
- Ok, vou começar a contar.

Bruno pigarreou, fazendo graça. Rafaela abraçou Pedro mais forte, já nervosa com o que poderia vir, e ele apenas acariciou seus curtos cabelos morenos. Guilherme puxou um pouco do cobertor de Luíza, que cedeu para que ele pudesse se juntar à ela. Todos eles prestavam total atenção ao amigo.

- Havia um motivo pelo qual eu não queria vir à floresta...
- Ahá! Viram? Eu disse que esse frio era praga dele!
- Vai começar de novo Lu? – Guilherme revirou os olhos.
- Ora, o Bruno joga uma praga e sou eu que pago?
- Será que posso continuar a história?
- Por favor! – Pedro e Rafaela falaram em uníssono.
- Ótimo!

Luíza cruzou os braços e encostou-se à Guilherme, que riu da atitude da amiga. Todos estavam, mais uma vez, atentos às palavras de Bruno.

- Uma semana antes de vocês marcarem esse acampamento, meu avô me contou uma história que me deixou apavorado sobre essa floresta.
- Não foi aquele avô que é doido da cabeça não, é? – Rafaela perguntou.
- Meu avô não é doido! Eu adoro as histórias dele, é um grande homem.
- E o que ele te contou? – Guilherme perguntou.
- Quando ele tinha a nossa idade, ele e os amigos também tiveram a ideia de acampar aqui na floresta. Havia uma aposta em jogo, eles teriam que ficar duas noites aqui e provar que a lenda era falsa.
- Lenda? Está falando da...
- Sim Pedro, da Dama Escarlate.

Todos ficaram em silêncio, entreolhando-se. Eles conheciam a lenda da Dama Escarlate, mas aquilo era apenas um boato que rondava a cidade deles há muito tempo atrás e que seus pais contavam para que eles pudessem dormir.

- Ora Bruno, você é o único que acredita nessa besteira.
- Não é besteira, Lu. Se fosse, não seria conhecido por tanta gente.
- Essa é apenas uma história que o pessoal mais antigo contava aos filhos – Guilherme afirmava e tom de deboche.
- Então o que meu avô viu naquela noite?

Todos da roda ficaram em silêncio. Fitavam Bruno com surpresa e uns aos outros com dúvida. Depois de alguns segundos, caíram na risada.

- Essa é a coisa mais idiota que eu ouvi hoje! – Luíza exclamou entre risos.
- É tão difícil assim acreditar em mim?
- É! – Todos disseram em uníssono.

Bruno cruzou os braços, emburrado. Não gostou nem um pouco de não acreditarem na história de seu avô, a quem admirava tanto. Pedro percebeu que seu amigo havia se magoado com a atitude que tomaram e decidiu fazer algo para animar ao amigo.

- Sabe Bruno, a gente pode não acreditar, mas não é por isso que vamos deixar de ouvir.

Rafaela e Guilherme concordaram com a cabeça, enquanto Luíza apenas pronunciou um tanto faz.

- Tudo bem, vou terminar de contar.

O moreno agora tinha um sorriso no rosto e estava animado para continuar a história.

- Meu avô me contou que era uma noite de lua cheia e que fazia muito calor. Eles decidiram acampar próximo ao Lago Celeste para amenizara temperatura. Depois de nadarem um pouco e de contarem algumas histórias de terror em volta à fogueira, foram se deitar. No meio da noite, meu avô acordou com uma vontade enorme de ir ao banheiro! Ele saiu de sua barraca e procurou algum lugar para poder “esvaziar-se” – o garoto usou as mãos para simbolizar as aspas – e encontrou uma pequena moita um pouco distante do acampamento.

“Enquanto meu avô tomou o caminho de volta para o acampamento, ele ouviu uma doce melodia. Intrigado, procurou de onde ela vinha, guiando-se pelos ouvidos. Já no outro lado do lago, ele notou que havia duas pessoas entre as árvores, envoltas por uma neblina. A melodia vinha daquela direção, o que o deixou ainda mais intrigado. Ao aproximar-se cuidadosamente e esconder-se atrás de outra moita, viu que uma das pessoas era um de seus colegas. A outra pessoa era uma mulher usando um vestido longo num tom escarlate, os cabelos longos e lisos batiam no meio das costas, sua pele era tão branca quanto à neblina que os envolvia. Ela acariciava carinhosamente o rosto de seu colega, e ele a olhava fascinado.

A melodia parou quando meu avô pisou em um galho seco. A moça olhou para trás e ele se escondeu o máximo que pôde. Não entendeu o porquê de a melodia ter parado de repente, mas sabia que tinha algo a ver com aquela mulher. A névoa começou a se estender até ele, o que lhe causou calafrios. Ele decidiu espiar e ver se a mulher havia percebido sua presença. Ao olhar para a moça, ela o encarava, seus olhos tinham um tom escarlate tão forte quanto seu vestido, e isso o assustou. Meu avô correu até o acampamento e acordou a todos dizendo ter visto a Dama Escarlate, mas ninguém acreditou. Assim que notaram o sumiço do colega, foram procura-lo. Encontraram apenas o seu corpo sem vida perto do Lago Celeste.”

Todos se entreolharam assustados com as últimas palavras de Bruno. Perguntavam-se se aquilo era realmente verdade, ou se era apenas um dos ataques de loucuras de seu avô. Rafaela já queria ir embora para longe dali o quanto antes, assim como Pedro, que ao contrário da namorada não demonstrava que estava apavorado. Guilherme tinha sido o único que não se assustou tanto quanto os outros amigos.

- Eu duvido que isso tenha acontecido mesmo... Você só está querendo nos assustar com isso.
- Não era pra contar uma história de terror? E o melhor de tudo é que esta é um fato real, e os fatos reais sempre apavoram mais.
- Só que este não é um fato real – Luiza se pronunciou – Seu avô não é bom da cabeça Bruno, ele deve ter inventado essa história. E você foi idiota o bastante para acreditar.

Um clima desagradável pairou entre o grupo de amigos naquele momento. Luíza tinha sido muito dura com Bruno, mas ninguém quis questioná-la, afinal ela estava certa. Bruno foi sempre um crianção que acreditava em tudo o que as pessoas lhe contavam, mas acreditar no avô que havia perdido a sanidade há algum tempo já era exagero. Não gostaram da forma como ela havia falado, mas já que fora a única que teve a coragem de finalmente abrir os olhos do colega, não iriam interferir.

Bruno ficou chocado com as palavras de Luíza. Ela foi muito dura com ele, e conseguiu abrir um buraco em seu coração só pronunciando tal frase. Não só por ter dito que a pessoa que ele mais admirava no mundo era louca, mas também por não acreditar nele e chama-lo de idiota. Ela sempre o chamou assim, mas dessa vez... Tinha algo diferente. Talvez fosse sinceridade, e não apenas um modo de retrucar às suas provocações. Bruno ficou ainda mais magoado por ser ela que disse tudo aquilo pra ele, a garota que ele mais amou durante toda sua vida. O moreno abaixou sua cabeça, fitando o chão.

- Então é isso o que você pensa de mim Lu? Que eu sou um idiota?
- O que? Não, eu...
- Ótimo. – Ele levantou-se de seu lugar sem olhar para ninguém e caminhou até sua barraca – Eu vou dormir. Boa noite.

Após Bruno entrar em sua barraca, a atenção de todos se voltou para Luíza, que estava surpresa pela reação que Bruno teve com suas palavras. Só naquele momento percebeu a barbaridade que tinha dito à ele, e que a verdadeira idiota ali era ela. A garota fitou o chão, as palavras de Bruno ecoavam na sua mente de tal forma que chegava a doer, tanto sua cabeça quanto seu coração. Estava com tanta vergonha que nem conseguia olhar para seus amigos. A loira levantou-se de seu lugar e entrou em sua barraca sem dizer uma palavra. Os outros três amigos se entreolharam.

- Acho melhor irmos dormir também – Guilherme pronunciou-se.
- Tem razão – respondeu Rafaela.

Assim que Pedro apagou a fogueira, todos foram dormir. Guilherme foi o único que teve dificuldade para dormir. Pensava no que Luiza havia feito e o quanto Bruno tinha ficado magoado. É claro que a garota não fez por querer, e que Bruno precisava parar de acreditar em histórias bobas, mas isso causou um clima chato entre o grupo de amigos, algo que não se resolveria em apenas um dia.

Em meio a esses pensamentos, Guilherme acabou pegando no sono. Em seu sonho, ele estava aos arredores do Lago Celeste, uma neblina densa cobria o lugar. Viu no outro lado do lago uma silhueta, não reconheceu de imediato quem era, mas seus olhos vermelhos se destacavam em meio às nuvens brancas. Enquanto encarava aqueles grandes olhos, uma melodia surgiu no ar, um som tão doce que lhe agradava os ouvidos. Enquanto procurava de onde vinha tal melodia, ouviu alguém chorando. Ao olhar para trás, Luiza estava ajoelhada no chão, aos prantos. Ao chegar mais perto, assustou-se ao ver que ao seu lado estava o corpo de Bruno.

Guilherme acordou assustado. Ao passar a mão pelo rosto, percebeu que suava. Aquele sonho tinha o deixado inquieto, talvez a história de Bruno tenha mexido demais com ele, apesar de ser só uma lenda. Mas havia algo estranho: ainda escutava alguém chorando bem baixinho. Lembrou-se que a barraca ao lado era de Luiza, e logo concluiu que deveria ser ela que estava chorando. Incomodado por não poder fazer nada, Guilherme saiu da barraca e foi caminhar por uma trilha.

A noite estava ainda mais fria. O moreno fechou o zíper de sua blusa e colocou o capuz na tentativa de amenizar o frio. De sua respiração saia uma fumaça fria que ardia seu nariz por dentro. Sentiu vontade de voltar para sua barraca, onde estava um pouco mais quente, mas não queria ouvir os soluços da amiga que parecia estar tão mal. Pensava em uma forma de ajudar, mas não conseguia achar nenhuma solução. Também não queria se meter, já que a briga era entre ela e Bruno, mas se sentia um inútil por não fazer nada, e odiava esse sentimento.

O moreno nem ao menos percebeu que estava perto do Lago Celeste. Apenas se deu conta do quanto estava longe do acampamento quando não enxergava muito bem por conta da densa neblina que apareceu de repente. Pensou que o motivo de tal fenômeno seria por estar perto do lago e estar uma noite fria, algo normal. Guilherme pôs-se a olhar para o lago, as águas refletiam uma pequena parte da lua coberta por uma nuvem. De certa forma, aquele lugar lhe trazia tranquilidade, algo irônico se for comparar com a lenda que surgiu do local. O moreno deu um sorriso ao lembrar-se da história e de pensar o quanto todos eram tão idiotas em acreditar que a Dama Escarlate realmente existia. Um frio percorreu lhe a espinha quando uma fraca melodia surgiu entre a densa neblina, a mesma melodia de seu sonho, o que fez seu coração acelerar.

Guilherme não sabia se voltava para o acampamento ou se procurava a origem da melodia que o deixava tão nervoso. Ao olhar para o outro lado do lago, viu uma silhueta. A neblina se dispersou um pouco e pôde ver que era Bruno caminhando ao redor do lago, entrando em seguida numa trilha. O moreno seguiu o amigo na tentativa de leva-lo de volta ao acampamento o mais rápido possível. Bruno não respondia aos chamados incessantes de Guilherme, e isso estava deixando-o preocupado. Depois de desviar de alguns galhos de árvores, conseguiu finalmente alcançar Bruno, só não contava que ele estaria acompanhado.

A neblina impedia Guilherme de ver com quem Bruno estava, o que o irritou. Decidiu então aproximar-se aos poucos e escondeu-se atrás de uma grande árvore com mato alto. Da distância que estava, conseguia ver que a pessoa que acompanhava o amigo era um pouco mais baixa que ele e tinha longos cabelos levemente cacheados, o que o fez concluir que era uma mulher. Ela acariciava o rosto de Bruno delicadamente, como se fosse íntima dele há muito tempo. Guilherme até chegou a pensar se não era Luiza, mas era impossível, já que há pouco tempo atrás ela estava no acampamento.

Bruno nem ao menos se mexia e mantinha a cabeça baixa. A neblina se dispersou mais um pouco, e Guilherme pôde agora distinguir as características da mulher. Ela possuía cabelos escuros, pele clara e vestia um vestido longo na cor escarlate. Ela olhava para o amigo como se o desejasse de alguma forma, o que Guilherme estranhou muito. Logo um pensamento lhe veio à mente: Ela tinha as características da Dama Escarlate. O garoto começou a rir, é claro que aquilo era uma brincadeira de Bruno para tentar convencer a todos sobre sua história. Ele levantou-se de seu lugar e aproximou-se de seu amigo e da mulher misteriosa.

- Tudo bem Bruno, pode parar de fingir agora – disse entre risos.

A mulher o olhou surpresa, não contava com outra pessoa naquelas redondezas, e nem ao menos entendia o comportamento do rapaz à sua frente.

- Quem é você, humano?

Guilherme surpreendeu-se com a beleza daquela mulher. Ela era uma mulher formada com rosto de menina, um corpo perfeito, olhos negros que poderiam hipnotizar qualquer pessoa. Perguntava-se onde Bruno havia conseguido achar uma mulher assim.

- Eu? Sou amigo desse cara aí, e por que você me chamou de humano? Isso é estranho, sabia moça?
- E não é isso que você é? – ela ergueu uma sobrancelha.
- Sim, e você também é...
- Ah, entendo... – ela sorriu de canto – Você pensa que sou humana. Devo dizer que você está enganado, jovem.

Guilherme a olhou curioso. Afinal, do que ela estava falando? Ao olhar para Bruno, procurando uma resposta, viu que havia algo errado com o amigo. Seus olhos estavam sem vida, mantinha uma expressão séria – ou ao menos foi o que Guilherme conseguiu identificar – e a cabeça baixa. Ele voltou seu olhar para a mulher, que agora tinha uma expressão assustadora.

- Sinto desapontá-lo, mas não sou o que você pensa que sou. Permita-me demonstrar.

O sorriso da mulher tornou-se ainda mais amedrontador. Com uma das mãos, trouxe o pescoço de Bruno para perto de seu rosto. Fechou os olhos e pareceu estar se deliciando com algum cheiro que ele emanava, e como mágica, ou alguma bruxaria, suas presas cresceram, destacando-se facilmente por conta dos lábios pintados de vermelho, e ela finalmente mordeu o pescoço do garoto.

Guilherme ficou sem reação. Seu amigo gemia e remexia-se de dor, de seu pescoço escorria sangue e manchava a blusa de frio do rapaz, a mulher parecia se deliciar de tal ato. As pernas do moreno começaram a tremer, não sabia se era de frio ou por medo do que poderia acontecer daquele momento em diante. Após alguns segundos, Bruno já não tinha mais coloração e as veias de seu pescoço eram facilmente vistas, ele já não reclamava de dores. A mulher então se separou dele, soltando o corpo frágil do rapaz que não conseguiu se sustentar e caiu ao chão.

Ela voltou seu olhar para Guilherme. Do canto de sua boca escorria o sangue do amigo agora caído, assim como de suas mãos. Ela limpou sua boca com a língua sem desviar os olhos do jovem à sua frente, seu olhar estava gélido e suas íris haviam mudado para uma coloração vermelha.

- Já ouviu falar na Dama Escarlate?

O moreno engoliu em seco. Mesmo não acreditando, estava vendo-a com seus próprios olhos, impossível não dizer que aquilo era somente um sonho, por mais que quisesse que fosse. Suas mãos agora tremiam assim como as pernas, suavam de nervosismo por estar tão perto daquela mulher. Guilherme deu alguns passos para trás.

- Você... Você é...
- Sim, eu mesma. Vocês humanos são tão idiotas... Mesmo sabendo sobre mim, arriscam suas vidas para provar a outros que estão errados. Grande erro. – a mulher levou suas mãos até perto de sua boca e lambeu seus dedos cheios de sangue – Devo dizer que o sangue de seu amigo é muito bom, mas pelo cheiro... O seu parece ser melhor.

Amedrontado, Guilherme começou a correr. Os risos maléficos da mulher ecoaram pela floresta escura, iluminada apenas pela lua. O garoto não conseguia ver por onde andava, mas só queria ir para longe daquele lugar. Lembrou-se de Bruno, o que lhe deu um grande peso na consciência. Ele ainda poderia estar vivo, mas como salva-lo se ele mesmo corria perigo? Mas não tinha tempo para isso agora, precisava avisar aos outros o perigo que estavam correndo.

Após um tempo correndo, Guilherme finalmente chegou ao acampamento fazendo escândalo. Luíza, Pedro e Rafaela saíram de suas barracas assustados, deparando-se com o amigo sem fôlego e tão branco como a lua que iluminava a noite.

- A gente precisa ir embora daqui! – começou Guilherme.
- O que? Por que? – Luíza perguntou.
- A Dama Escarlate, ela é real! Eu a vi! Ela pegou o Bruno e agora está vindo atrás de mim!

É claro que ninguém acreditou nele no começo.

- Isso não tem graça, Guilherme – Luíza cruzou os braços.
- É verdade, Lu! Por favor, acredite em mim!
- Pessoal – Rafaela estava um pouco afastada, na frente de uma barraca – Bruno não está aqui.
- Onde ele está Guilherme? – Pedro perguntou.
- No meio da floresta, a Dama Escarlate o pegou! Ela bebeu o sangue dele! Uma vampira!
- Pare com isso Guilherme! – Luíza levantou a voz.
- Por que é tão difícil acreditar?

A melodia voltou a tocar, seu volume aumentava a cada segundo. Todos agora ouviam, olhando para os lados procurando de onde ela vinha.

- É ela! Ela está vindo pra cá! Vamos embora daqui!
- Não sei quanto a vocês, mas estou começando a acreditar! – Rafaela já estava começando a apavorar-se.
- Isso não pode ser real, você e o Bruno devem ter combinado.
- E desde quando eu concordo com uma brincadeira vinda do Bruno, Pedro?
-E-eu vi algo se mexendo atrás daquela árvore... – Luíza pronunciou-se com a voz trêmula.

O grupo de amigos olhou para a direção que Luiza apontou, era a mesma que Guilherme apareceu correndo. Eles ficaram parados, esperando algo acontecer, na expectativa de ser somente algum animal selvagem ou até mesmo Bruno querendo pregar uma peça. Apenas Guilherme sabia quem realmente era.

- É tarde demais para corrermos agora...

A Dama Escarlate saiu de trás das árvores, dando passos elegantes. Suas mãos ainda continham um pouco de sangue, o que fez todos exceto Guilherme ficarem horrorizados. Luíza levou a mão à boca para conter um grito. Rafaela segurou a mão se Pedro apertado, e ele a abraçou como se quisesse protege-la do que provavelmente estava por vir.

- Ora, ora... Acho que tirei a sorte grande hoje. Ainda bem que atraí aquele garoto com minha música, ele me trouxe mais quatro humanos para deliciar-me – ela aproximava-se lentamente do grupo – Quem será o primeiro?

Guilherme posicionou-se em frente à Luiza. Se ele não havia conseguido salvar o amigo, pelo menos protegeria a garota que ele amava. Talvez aquilo não fosse o suficiente, mas pelo menos tentaria. Os amigos aproximaram-se uns dos outros para procurar alguma saída. A mulher parou alguns passos antes deles.

- Ninguém irá se oferecer? – todos ficaram calados – Pois bem, vamos fazer do modo difícil.

A Dama Escarlate foi rápida. Pedro não teve nem tempo para piscar, e a vampira já havia o derrubado no chão. O garoto usava as mãos para segurar a cabeça da mulher longe de seu pescoço, um grande sacrifício já que ela era tão forte quanto ele. Rafaela, desesperada ao ver que o namorado poderia morrer, pulou nas costas da vampira e puxou seus cabelos. A mulher deu um grito e levou seu corpo para trás, o que deu à Pedro uma oportunidade de fuga. Rafaela não conseguiu segurá-la por muito tempo; a vampira usou suas unhas para feri-la no estômago, rasgando sua pele.

Pedro gritou pelo nome da namorada, que gemia com a dor. O loiro correu até a namorada, mas ao chegar perto da vampira foi arremessado longe e bateu a cabeça em uma árvore, causando-lhe um corte. Guilherme aproveitou a distração da vampira e acertou-lhe a cabeça com um grande galho de árvore que havia encontrado ali perto. A mulher foi ao chão, mas logo se levantou, agora com sangue escorrendo por seu rosto devido ao corte em sua testa. Aquele sangue deslizou até o canto de sua boca, que ela limpou com a língua novamente.

- Isso está me deixando com muito mais sede. Vocês deviam cooperar mais.

Luíza ajudava Rafaela a se levantar enquanto a vampira falava. Guilherme posicionou-se na frente delas, ainda segurando o galho com as duas mãos apontando para a vampira. Pedro aproximava-se de seus amigos com dificuldade, ele mantinha sua mão sobre o corte um pouco acima de sua orelha direita, que sangrava incessantemente. A vampira acompanhava os passos de Pedro enquanto ele se aproximava do grupo.

- O aroma que emana do sangue desse humano loiro é muito agradável. Deixa-me excitada.
- Fique longe dele! – gritou Rafaela.
- Receio que você não está em condições de dar alguma ordem por aqui, minha jovem .
- Se você fizer algo com ele, eu... Eu...
- Você será uma ótima sobremesa, agora, por favor, cale-se, antes que eu mude de ideia.

A Dama Escarlate voltou sua atenção para Pedro. Rapidamente ela aproximou-se dele e prensou-o contra uma árvore. Ao bater sua cabeça na árvore, seu ferimento latejou e ele gemeu de dor. O sangue de seu machucado manchava seu cabelo e escorria por seu pescoço, o que chamou a atenção da vampira. Ela lambeu o pescoço do garoto por onde o sangue havia escorrido, o que o deixou um pouco enjoado. A mulher aproximou seus lábios aos ouvidos do rapaz.

- Você deveria se considerar um cara de sorte por ser o primeiro a morrer.

Rafaela gritava apavorada pelo namorado, implorando para que a vampira não fizesse nada com ele. A garota era impedida por Luíza de se aproximar de Pedro e ser mais uma vítima nas mãos daquela mulher. Guilherme continuava parado, sem saber o que fazer, afinal se ele saísse dali deixaria as duas amigas desprotegidas, podendo ocasionar a morte de ambas. Para a vampira, os gritos suplicantes daquela jovem eram como música para seus ouvidos, adorava quando suas vítimas imploravam por suas vidas ou mesmo por pessoas próximas a elas. Ela roçou suas presas no pescoço de Pedro como forma de provocação para a garota, além do que brincar com a comida sempre a excitava mais. Era como se aquele líquido vermelho que tanto ansiou ficasse mais doce a cada súplica para não derramá-lo.

Mas já estava na hora de parar com brincadeiras. Sua sede estava quase impossível de ser controlada, e o sangue que já tinha provado a deixou em estado de êxtase. Ela chegou até a forçar seus dentes sobre a pele do rapaz, mas uma dor em seu estômago fez com que ela parasse com o ato. Ao olhar para baixo, um pedaço de madeira havia atravessado seu estômago. Pedro segurava a ponta daquela estaca, sorrindo com o fato de seu plano ter dado certo.

- Ouvi dizer que estacas de madeira no estômago paralisam um vampiro.

A vampira deu alguns passos para trás, segurando no galho. Seu ferimento sangrava muito, assim como sua boca. Ela encarou Pedro com o cenho franzido.

- Você acha mesmo que uma coisa simples dessa vai me parar?
- Eu tenho certeza, afinal, esse galho é de mogno, uma das madeiras que enfraquece os vampiros, que por acaso foi justamente a árvore que você me jogou.
- Moleque metido! Como sabe de tudo isso?
- Você teve o azar de eu ser fã de histórias de vampiros. Já li muitos livros, sei diversas formas de mata-los.
- Então você sabe que isso não irá me matar – ela continha um sorriso de canto.
- Sim, eu sei. Era só para ganhar tempo.

A vampira olhou-a curioso. Ele queria que ela ficasse parada por algum motivo, por isso acertou-lhe o estômago, mas não entendeu o porquê. Ela então sentiu o cheiro de um humano se aproximar, mas não conseguiu desviar a tempo. Guilherme havia acertado o galho que segurava antes em seu coração. Graças à dica de Pedro, viu que aquele também era um galho de mogno, e aproveitou a primeira deixa para finalizar o trabalho. A vampira cuspiu sangue e finalmente caiu ao chão.

- Derrotada... Por um bando de crianças... Isso é muita humilhação.

Ela pareceu finalmente ter se acalmado. Seus olhos continuavam abertos, mas ela não se mexia. Todos deram um grande suspiro de alívio. Luiza finalmente soltou Rafaela, que correu para os braços de Pedro em prantos. Guilherme aproximou-se de Luíza.

- Não acredito pelo que acabamos de passar!
- É um alivio estarmos todos... – Luíza parou sua fala – Bruno!

A garota começou a correr pela trilha em que a Dama havia aparecido. Guilherme correu atrás da garota, tentando impedi-la de ver como o amigo estava, mas ela o encontrou antes que ele pudesse alcança-la. Ela estava abaixada, abraçando o corpo já sem vida de seu amigo, chorando e gritando por seu nome e suplicando para que abrisse os olhos. Aquela cena cortou o coração de Guilherme, que precisou tomar coragem para aproximar-se da amiga.

- Lu...
-... Ele estava vivo quando cheguei aqui. Ele ficou aliviado por eu estar bem e disse que me amava. Mas... Eu não tive tempo nem de me desculpar. – Ela o abraçou ainda mais forte, continuava a chorar pela oportunidade perdida – Eu devia ter dito antes o que eu realmente sentia por ele.

Minutos depois, Pedro e Rafaela chegaram ao local, ambos se impressionaram com o estado do amigo. Pedro havia pedido ajuda da policia pelo celular e agora precisavam voltar ao acampamento. Guilherme afastou Luiza com dificuldade do corpo de Bruno e o grupo voltou para o acampamento.



- Quem diria que a famosa Dama Escarlate realmente existia... – disse o policial observando o corpo da vampira no chão. – Sinceramente, achei que fosse só uma brincadeira quando ligaram.

- Realmente é bem difícil de acreditar, senhor policial – comentou Guilherme.

O acampamento era iluminada pelos faróis da viatura policial e pelas lanternas que eles seguravam. Pedro e Rafaela estavam sendo cuidados por um médico um pouco distantes, enquanto Luiza estava sentada dentro da viatura, abraçada às pernas. Desde que voltou ao acampamento, não havia dito mais nenhuma palavra. Seus amigos acharam melhor deixá-la sozinha um pouco, afinal aquilo havia sido um choque pra ela, mesmo a garota não admitindo.

Um policial surgiu da trilha em que antes os amigos indicaram onde estaria o corpo de Bruno.

- Ei garotos, vocês tem certeza de que o corpo de seu amigo estava perto do lago?
- Sim, temos certeza disso – Guilherme respondeu ao policial.
- Bom, sinto dizer, mas não encontrei nada por lá.

Todos olharam espantados para o policial, até mesmo Luíza que até agora sequer de mexia enquanto os outros conversavam sobre o que tinha acontecido.

- Mas, isso é impossível! – Pedro questionou – Todos nós vimos o corpo dele.
- Vamos ter que iniciar uma busca pelo corpo do rapaz. Vocês precisarão nos acompanhar até a delegacia para prestar depoimento.

O sol finalmente começava a surgir entre as árvores enquanto as pessoas no acampamento terminavam de investigar o caso. Assim que os raios de sol tocaram a pele da vampira, ela começou a gemer e a se contorcer, assustando a todos ali presentes. Os policiais apontaram as suas armas para a Dama, enquanto pediam para que todos se afastassem do local. O corpo da vampira foi desfazendo-se em pó, e levado pelo vento forte. O silêncio se alastrou entre as pessoas presentes, quebrado por um policial.

- Vamos logo embora daqui!



Luíza acordou assustada naquela manhã. O sonho que teve com Bruno havia deixado-a abalada, e desabafar com sua mãe não adiantou muito. Segundo ela, o motivo desse sonho era por fazer apenas uma semana que ele havia falecido, mas mesmo assim ninguém havia encontrado seu corpo.

A garota mal conseguiu almoçar. Ficou o tempo todo pensando naquele sonho, onde Bruno chamava pelo seu nome. Ele estava na floresta, à beira do Lago Celeste, estendendo a mão para ela do outro lado do lago. Não conseguia esquecer-se da sensação de felicidade ao ver que ele estava vivo e chamando por ela, mas isso logo acabou quando ouviu seu despertador tocar. Aquilo estava a deixando louca, era algo que ela precisava conferir, para convencer a si mesma de que Bruno não estava mais entre eles.

Naquele dia, seus amigos a visitaram em sua casa. Ela pensou em contar sobre seu sonho, mas achou melhor não. Eles poderiam ficar preocupados com ela, mais do que já estavam, e isso ela não queria. Após uma agradável noite com os amigos para tentar esquecer os problemas, Luíza esperou que todos em sua casa finalmente dormissem para que pudesse sair sem que ninguém a visse. A garota pegou um táxi que a levou até o fim da cidade, caminhou até o local onde ela e seus maigos haviam montado o acampamento. Aquela noite estava tão fria quanto a uma semana atrás, mas diferente daquele dia a lua não iluminava tanto quanto antes. Mas ela não sentia medo do escuro, afinal o perigo que antes havia ali não existia mais, e precisava fazer aquilo.

Luíza seguiu a trilha até o Lago Celeste. A lua decrescente se repletia nas águas calmas, o lugar estava exatamente como naquela noite, não havia mudado nada. Finalmente ela havia se convencido de que nada diferente havia acontecido. Bruno não estava lá como em seu sonho, ele estava morto.

Ao virar-se e voltar a andar, agora pra casa, uma neblina formou-se no local. Guilherme havia lhe contado sobre o fenômeno, ela apareceu quando a Dama Escarlate estava junto à Bruno, prestes a beber seu sangue. Aquilo a assustou, pensou na possibilidade de aquela vampira estar ainda viva, e temeu por sua vida. Olhava para todos os lados, procurando algo que provavelmente a atacasse, enquanto andava de costas até a trilha. Ao ouvir seu nome, sentiu um calafrio correr sua espinha.

- É você mesmo, Luíza?

A loira olhou para trás, surpreendenso-se com o que via. Bruno estava em pé à sua frente, usava roupas casuais tão negras quanto seu cabelo levemente bagunçado.Sua pele estava pálida, tinha olheiras profundas, seu porte físico também havia melhorado muito. Luíza esqueceu do que era respirar por alguns instantes.

- Bruno? Você está... Está vivo!
- Bem, não exatamente... – Ele deu um sorriso sem graça. Aproximou-se a passos curtos da garota, parando à sua frente – O que está fazendo aqui?
- Eu precisava convencer a mim mesma que você não estava... Bem...
- Morto? De certa forma, estou.

A loira agora o encarava. Seus olhos não eram mais os castanhos claros que sempre a deixava sem ar, mas sua nova coloração vermelha dava ao garoto um certo charme. Aquelas íris a fez lembrar daquela noite, quando viu a Dama pela primeira vez. Luíza chegou mais perto do moreno, tocando em seu frio pescoço, procurando pelas marcas de mordida deixadas pela vampira.

- Você não é mais humano, não é? – disse a garota com a voz baixa.
- Infelizmente não. Desculpe por isso, Lu. Parece que a Dama planejava me deixar dessa forma, então não bebeu todo o meu sangue.

Bruno parecia tenso. O cenho franzido demonstrava o quanto estava se esforçando para concentrar-se apenas em fitar apenas os olhos de Luíza e ignorar as veias que pulsavam em seu pescoço. Seu toque ainda pirava a situação, precisando até mesmo prender sua respiração para não sentir o cheiro do sangue da loira. Percebendo a reação do garoto, Luíza se afastou dando um passo para trás.

- Deve estar sendo difícil para você ficar tão perto de uma humana...
- Estou me esforçando quanto a isso, é o mínimo que posso fazer por você.
-... Eu posso te perguntar uma coisa?
- O que?
-... Você deixou de me amar?

Aquela pergunta o tinha pêgo de surpresa. Lembrava-se de cada detalhe dos últimos momentos de sua vida, onde havia finalmente dito à Luíza tudo o que sentia, mas não conseguiu ouvir a versão dela. Na verdade, ele nem mesmo queria ouvir, pois sabia que provavelmente ela não se sentiria da mesma forma.

- Meu coração pode até ter parado, mas o que eu sinto por você se estenderá pela eternidade.

Luíza sorriu, era exatamente o que ela queria ouvir. Uma pequena esperança começou a surgir de seu coração que até a pouco estava em pedaços.

- Você não sabe o quanto estou feliz em ouvir isso – Bruno a olhou curioso – Sabe, eu não tive tempo de lhe dizer o que eu pensava sobre isso. Primeiro, eu queria me desculpar por ter te chamado de idiota. – ela abaixou sua cabeça, desviando seu olhar, tentando esconder seu rosto corado – A verdade é que eu sempre gostei desse seu jeito de alegrar a todos, fazendo-os rir de suas palhaçadas. Eu não sei por que sempre dizia que te odiava! Não sei por que sempre dizia que não gostava de suas brincadeiras, quando na verdade eu era a pessoa que mais amava. Acho que a única idiota aqui sempre fui eu, de nunca ter assumido nem para mim mesma o quanto eu te amava... Me desculpe por demorar tanto para dizer que eu amo você, Bruno.

O moreno a olhou espantado. Aquela não era a Luíza durona que ele conhecia. Ela estava sendo sincera, mostrando seu lado sensível, segurando as lágrimas que teimava em querer molhar seu rosto. Bruno gostou dessa Luíza, ela parecia ser mais linda e gentil do que a que conhecera quando humano. Mas dessa forma, ele não podia ficar perto dela.

- Fico feliz em ouvir isso Lu, mas não há como ficarmos juntos agora.

Luíza abaixou sua cabeça tristemente, deixando uma lágrima cair. Ela sabia do perigo que corria se ficasse perto dele, e que agora ele tinha a eternidade nas mãos, algo que ela não alcançaria. Se bem que, se pudesse ficar a eternidade ao lado dele, não se importava em jogar fora toda sua vida humana para isso. Luíza surpreendeu-se com os próprios pensamentos. É claro que havia um meio de ela conseguir aquilo.

- É claro que há!
- Há?
- Me transforme em vampira. Poderemos ficar juntos pela eternidade.

Bruno não gostou nada da ideia da garota. Não gostava do que havia se tornado, e com certeza não a levaria para aquele lado obscuro.

- Não diga besteiras, Lu. Você tem a vida inteira pela frente.
- Vida essa que não fará sentido sem você.
- Pare com isso. Você conhecerá outros caras, encontrará alguém que a ame.
- Mas quem eu amo é você, Bruno! Eu quero ficar ao seu lado! E se para isso eu tenha que jogar minha vida fora, eu não me importo.

É claro que ele não faria tal ato. Não teria coragem o suficiente para isso. Bruno deu alguns passos para trás e virou-se, como uma forma de ela simplesmente esquecer da conversa e ir embora. O que ele não contava é com o cheiro de seu sangue ficar ainda mais forte, deixando sua sede quase que incontrolável. Ao olhar para trás, viu que Luíza tinha em mãos um canivete – provavelmente ela havia trazido no bolso da calça para se proteger caso acontecesse algo de errado – manchado de sangue e um corte em seu pulso. O sangue escorria por seu braço e pingava na grama verde, infectando o ar com aquele aroma tão doce para o moreno.

- Sinto muito ter de forçá-lo a fazer isso.

Bruno não conseguiu aguentar sua sede. Aproximou-se rapidamente de Luíza e a segurou pela cintura com uma das mãos, enquanto segurava seu pulso cortado com a outra. Ele aproximou o pulso cortado de sua boca e lambeu o sangue que escorria do ferimento, fazendo com que Luíza se arrepiasse. Bruno aprecisou aquele doce sangue antes de chegar perto do ouvido da loira.

- Você não devia ter feito isso – sussurrou.
- É apenas um pequeno preço que terei de pagar para ficar ao seu lado.

Mesmo tentando parar, os instintos de Bruno falaram mais alto. Agora que já havia provado do sangue de Luíza, não havia mais volta. Assim como a Dama, ele também roçou seus dentes no pescoço de Luíza, e gostou muito da sensação de brincar com a comida. Luíza logo sentiu uma dor vinda de dois pontos em seu pescoço, gemendo em seguida. Sentia todo o seu sangue sendo drenado de seu corpo, uma sensação incrível apesar de começar a se sentir fraca. Alguns instantes depois, perdeu os sentidos.

Bruno conseguiu parar de beber o sangue de Luíza antes que ele se esgotasse de seu corpo, algo quase impossivel para alguém a pouco transformado. Sua sede havia passado, deixando em seu lugar um grande remorso pelo que havia feito. Logo todos seus amigos e parentes de Luíza iriam procurá-la, mas não a encontrariam. Ela havia deixado uma vida para trás por ele. Se foi tão fácil assim para ela, talvez também fosse fácil conviver com esse remorso por toda a eternidade. Era uma coisa que teria a eternidade para descobrir.

Fim


Notas Finais


Espero que tenham gostado da fic. Eu adorei escrevê-la! Por favor, comentem, favoritem, critiquem, elogiem, ou o que preferirem. Seus comentários serão bem vindos e me ajudarão a melhorar cada vez mais, além de me deixar muito feliz!

Ja ne!

 
 

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