É como se você estivesse andando sobre brasas. Elas queimam, ferem e ardem enquanto você tenta desesperadamente chegar ao outro lado e talvez cuidar das queimaduras – mas naquele momento tudo o que você quer é aliviar o calor.
“Deus, por favor, me ajude!”, você grita e não há resposta porque tecnicamente não deve haver resposta. É só você, as brasas e a vontade de atravessá-las.
Encare isso como um desafio, eu lhe diria. Alguém te lançou aí e esse mesmo está regulando a temperatura do fogo, mas, hã, saia daí o mais rápido possível.
Como idiota tudo o que você faz é gritar e chorar.
Então, como se Deus quisesse provar sua existência, alguém vêm correndo (rápido o suficiente pra você não distinguir seu rosto) e derruba-lhe um balde de água fria.
Fria? Eu estava brincando. Aquela água era congelante. Insuportável.
Droga, droga – você murmura. A sensação é perturbadora
Seu corpo, que antes ardia incontrolavelmente, queima gelado (você pode jurar que viu o vapor de água desprendendo de sua pele), tão gelado que cada osso parece trincar como vidro. Tremores começam a percorrer cada centímetro de seu corpo.
Há também a parte boa. As brasas que queimavam sob seu pé se apagaram. Estes podem gritar e explodir em bolhas, mas aquelas brasas apagaram. Já não tem nenhum poder.
Porque não existe mais fogo.
Você fica tão feliz, tão feliz. Não vai precisar atravessar aquele mar incandescente para se aliviar. Não mais.
Isso tudo porque alguém fora misericordioso o suficiente pra te livrar dessa tarefa. Quem foi? Não importa, agora que seu coração bombeia euforia.
Você não parece ser capaz de chorar porque esse estado de êxtase lhe impede. Como quando se ganha algo tão bom que lhe faltam palavras.
Assim que a euforia passa e seu corpo se aquece as lágrimas vêm – você tem que agradecer o presente, afinal – e no início você pensa serem de alegria.
Mas não são.
Porque, quando seu coração se aperta e você engasga, percebe que não chora de alegria. Nem de satisfação ou qualquer sentimento bonito.
Molhada, sozinha e isolada você se agacha naquele quadrado só seu. Abraça as pernas e enterra a cabeça nelas.
Claro que não poderia ser fácil assim. Você sabe que começou a sentir falta do calor – mesmo com todo aquele irradiado à sua volta. Sente falta do seu calor.
E mais: sente uma bruta falta do desespero que tinha de chegar do outro lado e pisar em chão seguro.
A falta do calor vai lhe consumindo à medida que você se enrosca. Só não vai querê-lo mais quando sentir tudo o que tiver que sentir, sofrer tudo o que tiver que sofrer. Isso significa mais brasas.
Agora, quando a última gota de esperança se congelou, você sabe que terá que atravessar aquilo um dia. Um dia. Agora você tem tempo pra pensar. A travessia é só sua.
Pela ultima vez você chora. Descobre que não importa quem lhe colocou lá – embora provavelmente tenha sido você mesmo – ou quem vai vir com baldes de água na intenção de ajudar.
A droga da travessia é sua e você terá que fazê-lo.Sozinha.