Começarei avisando aos desentendidos que esse artigo representa as minhas próprias opiniões e experiências sobre o assunto aqui tratado. Não quero ofender ninguém com o que eu escrevi, e nunca foi essa minha intenção.
Gostaria também de demonstrar meus agradecimentos à Coward Montblanc pela sua ajuda na elaboração da lista. Obrigada, C! 8D
Ensaio sobre Mary Sues - Parte UmA Mary Sue (sometimes just Sue), in literary criticism and particularly in fanfiction, is a fictional character with overly idealized and hackneyed mannerisms, lacking noteworthy flaws, and primarily functioning as a wish-fulfillment fantasy for the author or reader. It is generally accepted as a character whose positive aspects overwhelm their other traits until they become one-dimensional.Essa descrição foi retirada da wikipedia em inglês sobre Mary Sues, e espero que todos os meus leitores tenham entendido o que está escrito aí. Se alguém porventura não entendeu... Não há problema, vai entender agora. Afinal, é sobre essa “doença” que esse (episódio de House) texto vai tratar.
Ultimamente, eu ando percebendo certo aumento na quantidade de Mary Sues do fandom em geral. Não apenas em lugares onde elas já eram abundantes como Yu-Gi-Oh! Ou Pokémon, mas também em locais mais raros como Hetalia, Death Note e até Homestuck (?!?), onde personagens OOC eram a preferência nacional. Não que eu também não desgoste desse tipo de atuação, mas o crescimento alarmante da Praga Sue começou a me incomodar tremendamente. Portanto, eu resolvi escrever esse texto na esperança de que alguém possa vir a entender meu ponto de vista e, talvez, impedir que mais uma dessas coisas surja no mundo.
Então, vamos começar o tratamento do modo mais simples: Conhecendo o inimigo.
Conhecendo a DoençaComecemos nossa abordagem com o conceito de Mary Sue. Afinal, o que diabos é isso? Por que é tão ruim? O que a Kyuubi tem contra esse tipo de coisa?
Uma pergunta por vez, meu jovem padawan.
“Qual é a definição de Mary Sue?”Mary Sue, como disse a nossa amiga wiki lá em cima, é uma personagem aparentemente perfeita. O tipo de garota que é linda, inteligente, dedicada, bondosa, gentil, corajosa, protege os fracos, nunca teve uma espinha, é faixa preta de caratê e judô, além de ser a melhor aluna do colégio e a atração do clube de teatro. Alguém sem defeitos, sem maldade, de quem todo mundo gosta (com a exceção dos invejosos, que morrem ou acabam gostando dela no fim) e que é absolutamente IRREAL.
“Er, mas Kyuubi, isso é ficção. Qual o problema da personagem ser irreal?”Muita gente se enrola nessa parte, mas o problema é muito simples: A história perde a graça.
Como diria minha boa amiga Coward: O problema não é ela ser irreal em si, mas sim o exagero em sua construção. Muitos personagens tem poderes ou aparência que são irreais, mas o que é, de fato, irreal numa Mary Sue é sua personalidade. Ela é a idealização da perfeição, o que a torna extremamente aborrecida para quem está lendo uma história com ela. A criatura é tão linda e maravilhosa que faz todos os meninos quererem namorar ela e todas as meninas quererem virar suas melhores amigas do mundo, ou então livrar seu namorado da maldição (O que eu acredito que seja um ato sensato).
Além do mais, qual é a graça em ser perfeito? Você não muda, não aprende, não erra, não cresce, não se desenvolve, o que praticamente quebra cada lei do ciclo da vida. Sem contar que a vida seria um saco... Exatamente como é para um leitor que tem que aturar uma Mary Sue.
“Apenas garotas criam Mary Sues?”É claro que não! Garotos também tem sua parcela de culpa nessa história. Apesar de Mary Sue ser um termo geral, há também Gary Stus, Larry Sues, Marty Stu e várias outras variações para designar um personagem masculino que sofra da mesma síndrome. Sem falar de que um garoto pode muito bem criar uma personagem feminina, assim como uma garota pode criar um Sue masculino. Isso vai depender em parte do fandom em questão, da preferência pessoal da pessoa ou de certos aspectos emocionais que eu vou mencionar daqui a pouco.
“Todo personagem original (OC) é Mary Sue?”Normalmente, os chamados OCs (Original Characters) são criados por pessoas que querem se envolver mais com a história original. Algum fã que queira conhecer seu personagem favorito, por exemplo, ou explorar mais algo que foi deixado de lado ou só comentado pelo autor original. Isso não é um problema, eu mesma gostaria de encontrar alguns seres ficcionais um dia, por mais improvável que isso pareça. O problema está quando o autor ou autora do personagem começa a querer realizar uma fantasia através dele/a. É assim que nasce uma Mary Sue.
Ou seja, não, nem todo OC é Mary Sue. Pelo contrário, em alguns casos há OCs que são até melhores desenvolvidos que personagens canon! Vai depender, é claro, da história e do autor. Infelizmente, escritores que trabalham com OCs sempre sofrem certo preconceito graças à existência das Sues (assim como escritores de Crossover – Mas isso é assunto para outro jornal). Mais a frente vou mostrar como diferenciar um OC bem construído, ou balanceado como eu costumo dizer, de uma Mary Sue bem disfarçada.
“Como eu posso diferenciar um OC normal de uma Mary Sue?”A maior, mais importante e crucial diferença é que um OC bem balanceado possui defeitos. Uma Mary Sue pode chegar a ter alguns poucos defeitos (normalmente ela tem um forte senso de justiça, ou é fria e cheia de pose, entre outras coisas que os criadores de Sues consideram “defeitos”), mas um OC bem pensado terá defeitos e qualidades que se harmonizam, além de uma personalidade crível.
Exemplificando, um OC pode ter uma personalidade alegre e bem-humorada, mas como uma pessoa normal viva e respirante, ele não irá ser feliz o tempo todo. Uma Mary Sue, pelo contrário, quase nunca terá seu temperamento alto-astral derrubado por qualquer que seja, nem mesmo pela tradução de Dark Wood Circus de Vocaloid. Se o personagem age de uma forma que te faz pensar que ninguém age assim na vida real, então pode apostar que a coisa já está no vermelho.
Daqui a pouco eu vou ensinar umas boas táticas para impedir que seu personagem se torne Mary Sue. Tenha paciência, ok?
“Personagens canon podem ser Mary Sues?”Sim, é claro. Autores publicados ainda são autores como todos os outros, sejam de originais ou de fanfics, e, portanto, estão todos sujeitos aos vários possíveis erros e clichês. Assim como os autores de fandons, os criadores originais também estão sujeitos a projetar a si mesmos nas histórias, ou a pecar o desenvolvimento de seus personagens, o que pode acabar originando o que eu chamo de Canon Sues, as Mary Sues criadas pelo autor da obra.
Muitos desses personagens acabam sendo alvos das projeções de ficwritters exatamente como as Mary Sues OCs, o que torna esse um fenômeno curioso: O fã em questão faz do personagem canon um tremendo Sue, ao mesmo tempo em que se defende dizendo que este foi criado pelo autor, e portanto não é uma Mary Sue... Isso sem falar de quando um personagem perfeitamente balanceado é transformado numa abominação dessas por um autor de fics que insiste em fazê-lo OOC (Out of Character, ou Semi-OC, ou seja, fora da personalidade normal do canon).
“O que leva alguém a criar um personagem assim?”Esse, caro Watson, é o x da questão. Aqui as coisas se tornam um pouco mais delicadas, então vamos tentar não nos ofender.
Não é uma regra, mas criadores de Mary Sues costumam vir em dois tipos: Pessoas muito jovens, ainda no começo de sua carreira ficwritter; ou pessoas que estejam insatisfeitas ou infelizes com as vidas que levam no mundo real. Vamos analisar cada tipo separadamente.
Escritores jovens costumam cometer esse erro por não terem ainda maturidade (emocional ou criativa) para criar personagens mais complexos, ou mesmo para desenvolver corretamente um que porventura criem. Isso é bastante comum, e a maioria dos ficwritters (sim, estou me contando nesse meio) já cometeu esse “crime” quando estava no início. Com o tempo, a experiência e a maturidade fazem sua parte e a Mary Sue passa a ser apenas uma marca do “passado negro” da pessoa, sendo a maioria abandonada ou reformada em uma personagem decente.
Esse caso era o mais comum até alguns anos atrás.
Outros escritores, porém, criam Mary Sues por necessidades emocionais bem mais sérias. São pessoas que estão querendo fugir do mundo real por alguma razão (vida monótona, conflitos familiares, problemas emocionais e muitas outras possíveis hipóteses) e que encontram na fantasia uma forma de compensar a falta de algo que sua realidade não tem.
Amor, aventura, prestígio, fama... O que quer que seja. O autor vai projetar seus desejos e anseios num personagem, um alter-ego de si mesmo como gostaria de ser, sem os defeitos de seu criador e com todas as suas qualidades. Mais do que isso, vai envolver essa personagem num mundo em que ele é que decide o que vai acontecer, tendo um controle que com certeza não possui na vida real. Essa, meus queridos, é a perfeita receita para o aparecimento de Vossa Alteza, a Princesa Mary. É a forma mais “perigosa” de Mary Sue, e infelizmente, está crescendo nessa proporção epidêmica que eu citei no começo do texto.
Claro, nem todo OC é uma Mary Sue e nem todo autor de fanfics que queira se realizar através da sua escrita cria uma Sue. Estou apenas comentando sobre o que comumente acontece, e claro que haverá exceções. Não precisa entupir minha caixa de entrada dizendo que nunca fez uma Mary Sue.
“Quais são os tipos existentes de Mary Sue?”Essa, meu querido leitor, é uma excelente pergunta. E isso me leva à segunda parte desse artigo, que virá em breve!