Postado em 12/03/2011 16:30
Quando eu tinha uns 7, 8 anos conheci um rapaz um pouco estranho. Naquele dia, um amigo da minha mãe falou que ia-mos buscar o 'frango e eu pensei logo: "Ah! Vamos almoçar frango!" , mas afinal não tinha dito frango e sim 'Franklin', o nome do filho dele. Franklin era um ano mais velho que eu, sempre com feridas e muito, muito magrinho. Agora que penso nisso, ele sempre agiu de forma estranha, mas na altura eu não notava, era só mais um amigo.
Com o passar do tempo, eu fui-me apercebendo que ele não tinha mais amigos. Podia brincar com uma criança um dia, mas no dia seguinte a criança já não se aproximava dele. Por vezes, ele tinha ataques de raiva e aleijava-me, mas eu nem ligava. Ouvia histórias de outros meninos zoando dele, jogando pedras nele e, uma vez até, fingindo ser amigos dele e dando-lhe uma garrafa de sumo, que tinha urina dentro. Isso ia muito mal com o meu senso de justiça na altura, eu era uma daquelas menininhas que tentava espancar o Hulk se ele ofende-se alguém - obviamente sempre me dava mal, mas logo esquecia. No final, acho que foi esse meu senso de justiça exacerbado que acabou a nossa amizade e o isolou finalmente.
Recordo-me que era muito divertido brincar com ele, construi-mos fortes com mantas e cadeiras, lia-mos histórias de vários livros de aventuras e atuava-mos com paus de vassora fazendo de espadas e legos construidos para formarem pistolas. Por vezes era mais triste, quando ele me falavade como a mãe lhe tinha batido, depois de beber de mais. Ele dizia que quando chegava a casa e cheirava o alcoól trancava-se logo no quarto, mas às vezes não havia tempo suficiente. Então eu também lhe contava sobre quando a minha mãe me trancava na varanda, ou começava a agir de forma estranha e os olhos dela ficavam todos vermelhos e escuros... mas no final sempre contava uma piada e riamo-nos os dois, continuando a brincar.
Mas mesmo assim eu ficava chateada, não falava com ele por dias seguidos, quando ele jogava coisas da janela para acertar na cabeça das pessoas, ou fazia partidas cruéis, ou jogava os alimentos para fora da janela, sem preocupação qualquer pelas crianças que não tinham nada que comer. Continuámos amigos por um bom tempo, afinal, o pai dele estava tendo um caso com a minha mãe, mas, quando descubriram que a minha mãe consuamia drogas e eu fui viver com a minha avó, a única coisa a segurar a nossa amizade era-mos nós e eu simplesmente não conseguia lidar com alguém que não entendia o sentismo da palavra 'justiça' e 'altruismo'. A nossa amizade foi lentamente acabando, sem eu perceber que se ele não entendia esses conceitos é porque nunca ninguém o havia ensinado e que se ele era mau era pois maldade era tudo o que lhe haviam mostrado.
Eu continuei a minha vida, com dezenas de outros amigos e sem pensar muito naquele rapaz que agora passava os dias trancado em casa. Mais tarde ele mudou-se com a mãe para outro país... França, Bélgica, Holanda, Itália...? Já não me recordo qual.
O tempo passou, fui aprendendo que a mãe dele tinha sido uma protituta, drogada que começou a namorar com um homem, drogado também e, para o manter com ela, havia ficado grávida. A criança nasceu, foi chamada de Franklin mas, apesar do pai o amar, não amava à mãe. A relação era sem amor e Franklin foi também criado sem amor. A negligencia e maus-tratos intensificaram-se quando ele foi para fora do país com a mãe.
Acho que ele acabou por voltar para aqui, com ela, mas não tenho a certeza. Tudo o que eu sei foi a noticia que eu recebi hoje:
Ontem de manhã Franklin foi encontrado morto no seu quarto. Apesar da causa exata ser desconhecida acredita-se que provenha da esquizofrenia, doença que começou a desenvolver, trancado no seu quarto jogando no computador dia e noite, neglicenciado.. Aparentemente, ele tinha-se juntado a um género de ceita satanica online, algo com que a sua mãe não se preocupava. Não sei exatamente como morreu mas, se acreditam que a causa foi a sua esquizofenia, não quero realmente saber que tipo de morte horrivel ele teve.
E, mesmo ouvindo sobre a morte de uma criança de 15, 16 anos no máximo, um velho amigo... eu não me senti realmente preocupada, longe de melancólica. Acho que foi mais a culpa que me fez escrever este memorial, ou talvez simplesmente o hábito que tenho tido de escrever os meus pensamentos para os analizar melhor.
No final, a conclusão a que cheguei foi que é impressionante como amigos que nos foram tão queridos, tão importantes, aos quais prometemos amizade eterna e um futuro brilhante... podem rápidamente tornar-se 'só outra pessoa na rua' ou 'só outro cadáver no mundo'.
Aaah... esse jornal acabou por virar mais uma entrada num diário... Mas quem sabe, talvez daqui a uns anos isto me traga um lindo sentimento de nostalgia~~~? Sem dúvidas, nostalgia éah um dos meus sentimentos favoritos~!
Como música, ia botar 'The End', mas não quero ser hipócrita, fingindo conhecer alguém com quem não falado há anos... Então, 'Dead'.
Escutando: Dead - My Chemical Romance
Lendo: Doujins... mtoos...
Bebendo: Chá preto com um ligeiro sabor a morangos~!
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