Mais um texto sobre vampiros.
Postado 27/02/2010 23:46
O abraço
Minha vida era a arte de todos os tipos. A capacidade do ser humano de expressar os sentimentos através dela, mesmo nos dias de hoje, me fascina.
A vida é uma dadiva que só e dada apreço quando estamos prestes a perde-la. Hoje dou valor a pequenos detalhes como:
Um belo pôr-do-sol refletindo o dourado do trigo, a brisa fresca e leve do mar. Esse tipo de coisa é de animar qualquer um.
Comecei a me importar com isso tudo quando conheci Rodjer, um maestro de música erudita. Com ele conheci o melhor da noite, lugares que nunca imaginaria que existisse, com pessoas que nunca ousaria encontrar, que se provaram melhores do que jamais poderia imaginar.
Certa noite, decidiu levar-me para um bar, o John’s. Quando entramos fomos direto para o elevador onde havia apenas dois andares, que não eram identificados por número e sim pelos nomes:
Heaven.
Hell.
O maestro então apertou Heaven. Senti a maquina deslocando-se vagarosamente para cima. Nesse meio tempo ele comentou que em Hell havia muita anarquia, não oferecia nada para pessoas de classe como nós. Quando saímos do elevador entramos em um salão longo e branco, composto por algumas mesas cobertas por cetim branco, ocupadas por pessoas que vestiam-se elegantemente, em roupas pelas quais valeria se travar uma guerra. E ao fundo ecoava uma música linda, uma métrica perfeita como nunca ouvira antes.
Sentados, ele pediu uma bebida a qual não identifiquei o nome, e nem em que idioma pediu.
Algumas horas voaram enquanto conversávamos. Assunto bom e leve, que variava desde meu estressante trabalho até seus concertos majestosos na Europa.
Foi depois de um momento de silêncio, o qual serviu para eu perceber os efeitos que a bebida já causava em mim, que ele retomara a palavra.
Sabe meu amigo, vejo talento em você. Na verdade mais que talento. Em seu coração eu sinto pulsar um sentimento limpo e vivido, Sua alma exala pureza. E por isso acredito que possa lhe dar algo para ampliar seu talento para níveis nunca antes imaginados – dizendo isso, levantou-se – Venha comigo.
Sem entender muito bem, lhe segui pela saguão. Rodjer parou em frente a uma sala, nela um confortável sofá cor de creme, um criado mudo ao lado e por fim um magnifico piano de cauda que dominava o centro do aposento.
Sente-se – apontou para o sofá.
Sem vontade alguma de contrária-lo coloquei-me ali, afundando na maciez do móvel.
Gosta de Vivaldi? - perguntou enquanto sentava-se em frente ao piano.
Claro! – respondi.
Sem cerimônia seus dedos acariciaram o piano, fazendo com que dali partissem as quatro estações, que Vivaldi transformara em uma fina melodia. Fiquei sem duvida hipnotizado com a naturalidade que o maestro empregava a musica. Quando terminou, voltou seu olhar uma vez mais em minha direção.
Já imaginou se essa musica fosse eterna, se ela fosse infinita?
Seria divino, com certeza – foi o que consegui dizer.
Ele então sorriu e perguntou com um tom casual - Me diga, Peter, você quer ouvir uma obra inédita?
Confirmei com a cabeça. Então iniciou-se o ato. Tudo que conhecia sobre ele mudou no instante em que seus dedos tocaram as teclas de marfim, transformando-se em uma mistura de som e fúria. Iniciou mostrando uma calma, uma leveza quase mórbida. Mas do meio para o final ele apresentou uma musica diferente, com uma agitação, uma raiva, um sentimento perturbador, era mais que perfeito. Experimentei uma sensação nunca sentida antes, era como se, naquele momento, estivesse sentindo cada centímetro da sala.
A musica havia terminado e nem havia percebido. Sentado ao meu lado perguntou:
– Sabe quanto tempo demorei para compor esta melodia?- uma breve pausa de silêncio.
– Cinco anos?- ele deu um sorriso e instantaneamente corrigiu:
– Foram trezentos e cinquenta anos para compor o ato que você acabou de ouvir.- Dei uma risada, mas ele tinha uma expressão séria:
– Co..como assim trezentos e cinquenta anos? Ninguém vive tanto tempo.- Com um olhar penetrante, quase hipnotizante:
– Você esta certo, ninguém vive por trezentos e cinquenta anos. Mas existe.- disse isso expressando um sorriso irônico.
– O quê? Você esta querendo me dizer que existe a mais de trezentos e cinquenta anos?
– Não meu caro Peter, o que estou querendo lhe dizer é que fui liberto da morte a mais de quatrocentos anos, e quero liberta-lo também.
Houve uma grande pausa, fiquei boquiaberto, não sabia o que dizer diante de tanta maluquice.
– O que me diz?- insistiu
– O que te digo? Digo que isso tudo é no minimo efeito dessa sua bebida! Como pode falar algo assim?- levantei e fui em direção ao elevador - Todo gênio é maluco, só pode! - falei sozinho.
Atravessando o salão, ele parou a minha frente com um olhar aflito e nervoso.
– Olhe em volta – e acenou com a mão. O que antes fora limpo e organizado deu lugar para uma orgia macabra. Todos se deliciavam com um banquete servido por mortais debruçados a mesa.
– Por favor, você não sabe o quanto foi difícil conseguir permissão para isso!- ele segurou meus braços. – Eu quero eternizar você, mas quero ter a sua permissão.- Enquanto ele olhava para mim, senti o ar ficar cada vez mais pesado, meu coração estava acelerado. Todos haviam cessado o deleite para apenas ouvir minha resposta.
Eternize sua arte. Torne ela perfeita e infinita, Peter.
Um silêncio tomou conta do ambiente. O suor brotava por todos os meus poros. A visão começara a tornar-se restrita.
Desde então louvo o sol se por, o brilho do trigo...
...por fotos.