Só um aviso antes de começar: se você ainda está lendo minha história O Ilusionista e não terminou, pare de ler. Se você não leu e por um feliz acaso pensa em ler, pare por aqui também. O jornal meio que tem alguns spoilers, então eu não leria se quisesse deixar a surpresa para o final.Olá, pessoal, tudo bem?
Estou fazendo este jornal para agradecer aos meus leitores que acompanharam minha primeira história que chegou ao seu final: O Ilusionista. A idéia surgiu de um dos meus tantos devaneios há pouco mais de um ano, e desde então, eu escrevi e reescrevi aquilo tudo pelo menos umas três vezes. Houvera vários começos, mas nenhum deles conseguia passar aquilo que eu desejava passar ao leitor, que era a sensação de imprevisibilidade que há na nossa vida todos os dias.
Uma das coisas que mais me fez pensar foi o final. Pensei, repensei e pensei de novo todas as possibilidades que poderiam ser consideradas para dar um bom final à história, mas que não deixasse nada definido: afinal de contas, eu queria deixar claro que apesar de aquele estágio da vida do protagonista ter acabado, sua história ainda estava sendo escrita, e como não podia deixar de ser, nossa vida reserva muitas surpresas, basta esperarmos por elas.
E como o próprio título do jornal diz, resolvi publicar um final alternativo que fiz para a história há um bom tempo. Creio que foi por volta de novembro do ano passado, em um tempo que estava meio bloqueado para escrever e pensando demais no final. Aí, tentando suprir a dúvida, escrevi, embora tenha descartado depois, por razões óbvias: o final era definitivo demais, apesar de deixar suas interrogações.
Aqui vai:
Tudo na vida tem um jeito. Desde seus mais insignifantes problemas até as crises de realidade que você enfrenta quando tem o poder de voltar ao tempo. Só não há jeito para a morte.E as vezes, eu acho que devíamos agradecer por isso.
Não sabia exatamente se tudo aquilo fora um sonho ou algo real. Não saberia te dizer se Alice, Rose, Julie e Diana eram realmente pessoas que existiram ou apenas fruto da minha nada fértil imaginação e do excesso de falta do que fazer na vida. Tudo bem que as minhas três personalidades continuavam ali, o ambiente como uma biblioteca cheia de livros que continham minhas memórias continuavam como eram, mas eles nunca falavam nada e embora cada detalhe das realidades que eu tinha mudado continuassem bem vivos em minha memória,era algo que eu julgava surreal demais para mim.
A partir daquela experiência, eu comecei a levar o ditado
há muito mais coisas que a nossa vã filosofia entre os céus e a Terra mais a sério. Talvez você acredite e assim como eu,comece a levar isso mais a sério.
Ou talvez você tenha que passar por algo do tipo para começar à acreditar.
De qualquer forma, minha recomendação é que você, leve isso à sério,pois quando você começa a pensar em tais coisas, o ditado parece criar vida e sentido, coisa que convenhamos, não há muito quando você o vê de início.
Se bem que...
sentido,
razão e
explicação foram coisas que eu parei de procurar depois daquilo. Aprendi muita coisa. Aprendi a parar de querer arrumar uma explicação para tudo e parei de querer controlar o mundo e as pessoas à minha volta,pois descobri que erros e decepções é aquilo que simplesmente nos faz mais humanos. É exatamente como diz o ditado:
Errar é humano.
Você deve estar curioso para descobrir o que houve depois que eu me recusei à fazer a prova para o Colégio Carlos Drummond não é? Acalme-se, você me suportou até aqui nessa história, pode aguentar mais um pouco. Ou não.
Caso a segunda opção seja o seu caso,pare de ler. É isso mesmo, pare de ler. Vá fazer algo que preste, vá gastar seu tempo com coisas que realmente compensam, ou então, caso você não esteja me suportando mais e não tenha nada para fazer, pare de frescura e continue lendo. De qualquer forma, eu sei que você não vai conseguir ficar muito tempo sem ler sabendo que o fim está tão próximo.
Agora vamos contar tudo que aconteceu de maneira resumida, é do nosso interesse que isso aqui termine o mais rápido possível.
Para começar, eu continuei estudando em minha escola pública, sem muitos amigos e na mesma situação de "invisível" que eu enfrentava quando tudo começou .Terminei o Ensino Médio por ali mesmo e ingressei em um faculdade local. Fui um dos primeiros a passar no vestibular e é claro, eu fiz Psicologia. Me formei e abri meu próprio consultório no centro de São Paulo.
Nem vou precisar dizer que meu intercâmbio para Londres foi substituído por um no Japão para Pós Graduação, por razões óbvias. Eu não queria correr o risco de topar com a Senhorita Dashwood em qualquer lugar da cidade, e mesmo que ela fosse puro fruto da minha imaginação, para mim, ela era real. Era real demais. Ou pelo menos eu desejava que ela fosse.
Aliás, devo dizer que com alguns estudos e momentos de muita conversa com o Trio, tentei racionalizar a coisa, dizendo que Diana era tudo que eu desejava em alguém que a minha imaginação criara para que eu pudesse suprir a enorme necessidade que eu tinha de me sentir seguro e ter certeza de que alguém, pelo menos uma pessoa no mundo realmente me amava.
Você deve ter percebido que eu finalmente assumi que no fundo, eu era muito sozinho. A ponto de criar três personalidades para interagir comigo mesmo e a ponto de criar uma personagem que encarnava todo o meu desejo de ter uma garota daquelas. Como se hoje em dia uma garota daquelas fosse existir.
Quando apresentei minha opinião ao Trio, eles simplesmente deram de ombros. Raiden ficou um tempo pensativo e não fez nenhum comentário, o que me deixou muito surpreso, não era ele o que tinha obsessão por obter respostas para tudo?
Isso foi bastante chocante.
Depois de um tempo, resolvi escrever. Transformei cada personalidade minha em um personagem de histórias totalmente diferentes. Yami se transformou em uma máquina de matar sem sentimento algum que de repente se via mais humano do que nunca, Edward virou um cara descolado que se via enfrentando questões que nunca enfrentara na vida,i nclusive a respeito do que ele pensava ser o amor e tudo mais e Raiden, bem, ele se transformou em um manipulador que acreditava ter nascido para isso. Cada idéia e cada palavra que eu escrevia, via um pouco de mim em cada um deles. As perguntas, os vícios, as peculiaridades, os hábitos estranhos, um pouco de ironia e muita depravação. Mas eram tão...diferentes.
Mas a vida nos reserva surpresas, sempre reservou. Eu pensava que as pessoas que eu tinha visto no sonho eram imaginárias ,mas não era totalmente verdade. Você devia ter visto minha cara de espanto quando eu fiquei na mesma sala que uma garota na faculdade. A propósito, seu nome era Alice, e em pouco tempo, ela se tornou minha melhor amiga.
Rose e Julie não apareceram dessa vez, mas Alice me mostrara as duas por fotos. Era espantoso.
****
Certo, agora vamos passar para outra parte da história que aconteceu depois de tudo aquilo .Como eu disse, me formei e abri um consultório em São Paulo. Em uma das minhas férias, eu conheci, no Vale da Babilônia, um casal de meia idade que tinha uma pousada por ali. Os dois estavam passando por dificuldades e eu vinha ganhando um bom dinheiro com o consultório e alguns serviços que prestava aqui e ali fora as minhas economias. Em dois dias, eu tinha passado de cliente para sócio. Comprei parte das ações do negócio e investi muito no capital de giro, divulgação e melhorias para o negócio. E como trabalhava e morava na cidade - sem falar que não levava o menor jeito para esse tipo de serviço - eu apenas entrava com o dinheiro enquanto a mão de obra ficava por conta de Márcia e Pedro, que faziam isso muito bem. Uma vez por mês, eu ia para lá ver como andavam as coisas e escapar um pouco do estresse e da agitação da cidade. Aproveitava a inspiração que aquele lugar me trazia e escrevia páginas e mais páginas de algo que eu pretendia transformar em um livro algum dia.
Estava fechando o consultório quando meu celular tocou. Era Alice.
- Já levou o chef Davi para a cama, Alice? - perguntei num tom exigente. Ouvi risos do outro lado.
- Não, Akira. Não.
- Então por que ligou? Disse que só te atenderia se fosse para você me descrever uma noite de puro prazer e orgasmos múltiplos selvagens e totalmente carnais. - eu podia não ser um total ninfomaníaco como antes, mas se uma coisa os três lá tinham em comum, era a depravação total. É claro que essa parte eu revelava apenas para os pacientes mais velhos e aos amigos mais íntimos.
- Não sei de onde tira isso,cara.Eu não estou interessada nele! - retrucou Alice com a voz meio nervosa.Ela não sabia mentir para mim.
- Ok,Alice. Você não estava interessada nele, do mesmo jeito que eu gosto de homem. -
retruquei.
- Você,gostando de homem? Meu Deus, que desperdício. Preciso tomar decisões drásticas agora. - ironizou ela.
Rimos por alguns segundos. Avistei meu Honda Civic à alguns metros dali, enquanto caminhava com o celular colado ao ouvido.
- É o seguinte: - comecei ,vendo que minha amiga iria precisar de um empurrãozinho. - vou para a pousada hoje e acho que chego ainda à tempo de dormir por lá. Vou reservar um chalé para vocês, tudo por minha conta. Convide o chef para um final de semana no Vale da Babilônia, diga que foi presentinho do seu melhor amigo. Tem dois dias para isso. Caso contrário, vou me ver obrigado a usar meu arsenal de psicologia e ter uma conversa de homem para homem com ele. - minha persuasão continuava a mesma. Assim como a capacidade de jogar sujo em certas situações, onde as pessoas precisavam de uma intervenção nada divina para que tudo desse certo.
- Você venceu, Akira. Eu vou, não precisa usar seu arsenal de psicologia nem a sua intervenção nada divina nisso.J á vi que comigo, você pega pesado. - disse ela, derrotada.
- Só quero que seja feliz, Alice. E pode admitir, estava louca para um fim de semana lá. Modéstia a parte, eu sei agradar clientes.
- É. - concordou ela. - O lugar é lindo e o serviço é ótimo, sem falar na comida, que ele vai
adorar. Nem sei como agradecer,meu amigo.
- Sabe sim. - repliquei,sorrindo. - Basta aproveitar o passeio.
- E você - era ela que agora falava num tom exigente. - Trate de arrumar alguma turista gostosa por lá. Cansei de ver você sozinho dando uma de cupido. Já está na hora de você parar de ficar atirando flechas por aí e procurar alguém para
você. Você já tem
vinte e oito anos!
- Parece a minha mãe desse jeito.
- Nada mais que a verdade.
Cheguei perto do carro e abri a porta, verificando minha bagagem, estava tudo ali. Não teria que voltar para pegar nada.
- Vou ver o que posso fazer, Alice. - dei a resposta de sempre e decidi cortar a conversa. - Te vejo em dois dias.
- Beijo.
Desliguei o celular e fiquei em silêncio, pensando nas últimas palavras de Alice. Já estava na hora de eu começar à procurar alguém com quem pudesse dividir minhas alegrias, tristezas, as coisas simples, como fazer um bolo, ou tentar cozinhar uma omelete, coisa que eu provavelmente não iria conseguir sem fazer uma bagunça. Enfim, eu queria alguém para dividir minha vida, afinal de contas, é isso que todo ser humano deseja, cedo ou tarde.
As pessoas mudam de opiniões rápido,não é?
Meu problema com aquela coisa toda era que apesar de não saber o que era sonho e o que era realidade, eu não conseguia ver em ninguém a mesma coisa que via em Diana. Ninguém era como ela, e ninguém me fazia o que ela fazia. Era como se ela tivesse sido projetada para mim e vice-versa. Mas era aí que minha mente começava a ter conflitos: se ela era tão perfeita para mim, como poderia existir? Não seria só a encarnação da mulher dos meus sonhos? Não seria só mais uma válvula de escape da realidade, como Raiden, Edward e Yami? Mas como Alice e as outras podiam existir? Era aí que minha mente dava um nó e eu não conseguia pensar em nada plausível.
Na verdade, eu queria que ela fosse tão real quanto as outras.
Liguei o rádio do carro e girei a ignição. Era hora de ganhar a estrada e deixar meus questionamentos à la Clarice Lispector de lado e rumar para uma folga no campo.
****
Era por volta das quatro da manhã quando eu enxerguei a pousada ao longe. O rádio havia sido desligado à muito tempo e só o silêncio me fazia companhia agora, tirando meus amigos imaginários que ocupavam os bancos vazios.
- Estamos indo bem, não acham? - perguntou Raiden, sentado ao meu lado. Dei um sorriso e olhei para os outros dois que estavam no banco de trás pelo retrovisor.
- Sim. Você ficou menos curioso. - respondeu Edward.
- E menos manipulador. - acrescentou Yami.
- E menos louco. - terminei. Raiden ficou meio surpreso com tantas mudanças e olhou para
Edward.
- Bem, Edward. - começou ele. - Você ficou menos do contra.
- E menos melancólico. - disse Yami,olhando para frente.
- E com mais conteúdo de conversa. - terminei. Rimos outra vez.
- Quanto à você, Yami.- retomou Edward. - Você ficou menos viciado em sexo.
- E menos esquentado. - disse antes de Raiden, que provavelmente estava pensando em algo diferente para o fim.
- E ficou com mais classe, diga-se de passagem. - disse Raiden. Trocamos olhares divertidos enquanto o carro sacolejava por causa dos buracos. Agradeci por meu carro ser de cor escura, devido a poeira que se erguia na estrada de terra. Parei o carro de frente para a pousada principal e peguei minhas chaves. Depois de pegar as duas malas que eu trouxera, levei para a minha cabana que ficava ali perto. O cheiro daquele lugar invadiu minhas narinas quando entrei, olhando tudo e aproveitando o ar fresco da madrugada. Pedro tinha me falado alguma coisa sobre uma suposta pretendente ao cargo de veterinária dos animais da fazenda que precisavam de cuidados frequentes. Deixaria isso para depois. Agora, eu só queria descansar um pouco.
Arrumei as coisas do melhor jeito e me atirei na cama,morto de cansaço. Márcia provavelmente me daria uma bronca por não escovar os dentes nem tomar banho, com aquela ar maternal
que era reforçado pelas conversas que ela tinha com minha mãe onde as duas me comparavam à uma criança de cinco anos de idade. Me lembrei que a primeira coisa que faria quando acordasse seria comer aqueles pães de queijo deliciosos que só ela sabia fazer.
Dormi antes mesmo de pensar que eu tinha ganhado muito mais do que poderia ter ganhado.
Mas acredite, em alguns momentos, quando você acha que está tudo perfeito, a vida vem te mostrar que pode ficar melhor ainda.
****
Quando acordei, o sol já tinha nascido. Como era Janeiro, eu tinha o horário de verão ao meu favor e ainda era cedo quando eu levantei. Fui tomar um banho para terminar de acordar e depois de trocar a roupa de psicólogo sério e vestir uma menor formal, fui para a pousada, lembrando que agora eu tinha uma entrevista de emprego a fazer. Pedro não tinha me dado detalhes sobre aquilo.
- Olha só quem chegou! - exclamou ele do balcão, acenando. Reconheci alguns hóspedes de outras estadas, e cumprimentei todos com igualdade. Eles elogiaram tudo,maravilhados. Apenas agradeci e disse que sua satisfação era melhor que o preço da estada. Depois fui para o escritório e pedi a Pedro que dissesse à pretendente ao cargo de veterinária da fazenda fosse ao escritório falar comigo.
Fiquei alguns minutos escrevendo por lá até baterem na porta.
- Entre. - disse,tentando não aparentar seriedade em excesso.
Foi aí que eu levei o maior susto da minha vida.
A veterinária que tinha entrado na minha sala era ninguém mais que Diana Dashwood. Não estava com as roupas de filhinha do papai rico. Estava usando roupas de trilha, shorts caqui e uma blusa regata branca. Não consegui olhar nos pés, mas tinha certeza que usava coturnos. Seu rosto ainda apresentava aquelas feições de menina, com os olhos castanho esverdeados quase saltando e os cabelos loiro escuro estavam presos em um rabo de cavalo. Mau conseguia raciocinar nem dizer nada. Mas logo fui puxado para meu corpo quando percebi que tinha que convidá-la para sentar.
- Bom dia. - cumprimentei indo até ela. Estendi a mão num gesto amigável enquanto ela ainda me olhava. Eu conhecia aquela expressão. Ela estava surpresa com alguma coisa.
- Bom dia. Diana Dashwood. - disse ela, com um certo sotaque inglês na fala.
- Muito prazer. Akira Sato. Sente-se, por favor.
Ela puxou uma cadeira que havia na frente de uma mesa minha e ficou me olhando, provavelmente pensando que eu seria o jovem chefe arrogante que tinha tido uma vida como a dela para ter vinte oito anos e ser dono de um negócio como aquele. Sua expressão de surpresa aumentou quando viu que eu puxei uma cadeira que estava ao seu lado e me sentei no mesmo nível que ela. Se iríamos trabalhar juntos, era bom que as barreiras de chefe e empregado caíssem ali mesmo.
- Então, doutora Dashwood - comecei em inglês - a senhora quer trabalhar com os animais daqui?
- Por favor, me chame de Diana. - pediu ela polidamente. - Doutora me deixa muito...velha.
Ri um pouco com aquilo e assenti.
- Claro,Diana. Você também pode me chamar apenas de Akira. Gostou do lugar?
- Sim, achei muito lindo. A comida é ótima,o serviço não é diferente e os roteiros foram muito bem elaborados. Nunca tinha visto nada igual desde que comecei à trabalhar aqui no Brasil.
- Obrigado. Estávamos realmente precisando de alguém que cuidasse dos animais daqui constantemente. Eles são saudáveis mas com esses roteiros onde os cavalos são bastante usados, nunca se sabe quando algum vai quebrar uma pata ou coisa do tipo. Pedro te disse alguma coisa sobre os salário, suponho.
- Ah sim. - respondeu ela. - Estou de acordo. Não preciso de tanto dinheiro.
- Tem onde ficar? - perguntei arrumando os documentos que ela me entregara. Já estava contratada e se faltasse alguma coisa para isso, eu faria com que tudo que estivesse no caminho fosse mandado para o inferno.
- Estava pensando em uma cidade aqui por perto. - disse ela. - Ainda não achei nenhuma casa que me agrade.
- Por que não fica por aqui mesmo? - sugeri. Uma coisa nada conveniente. Provavelmente agora eu poderia fazer mais visitas à pousada por mês... - Podemos preparar uma cabana ou um chalé e você pode deixá-lo ao seu gosto. Não vejo por que você viajar quilômetros todos os dias quando pode ficar aqui.
Seus olhos brilharam com a possibilidade de morar em um lugar como aquele. Para ela, que gostava tanto da natureza, seria um sonho realizado.
- Claro, eu adoraria. - ela respondeu. - Adoro a natureza e ficar perto desses animais seria ótimo.
Dei um sorriso olhando sua expressão, parecendo uma criança que acabava de receber um presente que tanto esperava. Me senti realizado com aquilo. Mas como Alice dissera, era hora de começar à procurar alguém para dividir a vida. Se bem que não seria necessário encontrar ninguém: ela já tinha me encontrado.
- Conhece o nosso roteiro? - perguntei me levantando. Ela me acompanhou.
- Só fui até ma cachoeira onde a água é fria à ponto de te fazer gritar. - disse.
- Temos outros roteiros. Gostaria de conhecer? - tudo bem,é só um convite inocente. Nada demais, certo?
Errado.
- Adoraria. - ela respondeu, sorrindo.
Fui com ela até o estábulo, onde Pedro tinha preparado dois cavalos para nós. Como ele sabia
que iríamos cavalgar? Alguma coisa me dizia que ali tinha dedo da Alice.
- Esses cavalos serão usados? - perguntei a ele.
- Sim, Akira. Por vocês dois. - respondeu ele. Diana fazia esforço para entender o que ele dizia por causa de seu sotaque mineiro, que ele fazia questão de usar muito quando ela estava por perto. - Alice ligou e quando eu contei que você estava falando com ela, me mandou preparar os cavalos para você mostrar os lugares daqui à doutora. E mandou dizer que seguiu suas ordens à risca.
- Que bom. Obrigado, Pedro. Voltamos para o almoço. - disse levando um dos cavalos para Diana.
Ele deu uma risada e se afastou, enquanto eu subia e olhava Diana subir.
- Monta há muito tempo? - perguntei.
- Praticava hipismo na adolescência. Gosto de cavalos, em especial. - respondeu ela, mostrando que sabia montar muito melhor que eu, que não tinha subido em um cavalo antes dos vinte e quatro anos.
- Eu não tenho tudo isso de prática. Comecei há apenas quatro anos, quando conheci esse lugar.
Diana pensou um pouco, depois deu um sorriso.
- Não teria graça uma corrida com você. Seria fácil demais. - provocou.
- Posso ter pouco tempo de prática, mas daria trabalho. Tenho certeza. - repliquei, fazendo o jogo dela.
- Só acredito vendo. Até onde?
- Até onde você aguentar.
Diana sorriu, convidativa e partiu em disparada em direção às colinas que haviam mais adiante.
O sol brilhava naquela manhã, mas nada se comparava aquilo. Senti o vento bagunçar meus cabelos enquanto olhava abobado para Diana, que já estava à certa distância de mim, correndo e olhando para trás, rindo.
Saí em disparada atrás dela, deixando para trás qualquer sinal de dúvida e insegurança. Saí para a vida que me esperava depois daquilo, não dando lugar para que o medo de dar errado, para as preocupações da vida e para as perguntas que eu não tinha encontrado respostas.
Tudo que eu queria estava ali, na minha frente,e eu estava deixando escapar - sem falar que seria muito humilhante entregar a vitória sem dar um bom trabalho à ela.
E deixando tudo isso para trás, parti para a corrida.
Então, pessoal, o que acharam? Ainda escrevi uma outra coisa, que era como um bônus para o final, uma pequena história contada pela Diana que mostrava um pouco de como era sua vida naquela realidade nova e como foi o final da história pelo seu ponto de vista. Espero que tenham gostado.
E a propósito, me respondam uma coisa: O Ilusionista merece alguma continuação?